Elogio à Colecção Vampiro

Tenho um amigo, daqueles para a vida e por isso é que estou poucas vezes com ele, que tem espírito coleccionador. Tem as edições todas das colecções Vampiro e da Argonauta. É obra, sabendo-se que são centenas de pequenos livros. Às vezes, dá-me para ter inveja dele, mas dura pouco.

Lembrei-me disto aqui há dias quando me preparava para uma daquelas esperas desesperantes em salas de consultório médico onde abundam revistas de sociedade do ano passado, já sem as capas. Fui procurar nas estantes lá de casa algo com que tecer os minutos e horas. Tinha de ser leve e absorvente para não darmos pelo tempo a passar. Caíram-me os olhos na meia dúzia de livrinhos da colecção Vampiro, sobras de maus negócios com o alfarrabista. Escolhi um. Entre um Hammett, um Chandler, uma Dorothy L. Sayers, um Frank Gruber e um Simenon, optei por este último.

Já em período de espera, comecei a ler. Primeira surpresa. Quando lia Simenon, aos 20 anos, sempre achei o inspector Maigret um velho. Então não é que o inspector pouco mais tem do que 50 anos? A perspectiva muda com a idade, não há nada a fazer. Já quase a entrar no universo de Maigret, estaquei numa frase: “Maigret seria capaz de um grande sacrifício para dar-lhe prazer (à mulher, madame Maigret), mas não esse de permanecer na cama, quando não o desejava.” Ora, são pormenores destes que fazem o retrato de um personagem, que lhe dão espessura e humanizam, ao mesmo tempo que nos fazem parar para reflectir. Por exemplo, nisto: são os pequenos pormenores que estabelecem as regras da vida a dois. O amor pode dar azo a que se façam os maiores sacrifícios mas não alteram as insignificâncias e quantas vezes essas insignificâncias fazem esquecer a capacidade de fazer sacrifícios? E não serão as insignificâncias que condenam relações amorosas com tudo para resultar?

Os bons autores escrevem frases assim. Aparentemente sem importância e só damos por elas quando passamos a fase de só arranhar a superfície da ficção.

A verdade é que ao fim de três páginas amarelas e meio comidas pelo tempo – a Colecção Vampiro não ficou conhecida pela qualidade do papel – já estava embrenhado no clima e no ritmo que Simenon imprime aos romances de Maigret. Até o cheiro a café de madame Maigret mais o do tabaco para cachimbo do inspector me entravam pelas narinas.

Que diabo! Como é que se pode achar que isto é literatura menor? Houve tempos em que era capaz de ler um livrinho por dia (por noite). Uma espécie de vício. Uns eram bons, outros nem tanto, uma vez por outra, lá vinha uma obra prima, do mesmo modo que se apanhava um mau. Mentira: não me lembro de nenhum verdadeiramente mau. Talvez menos bom.

Agora, os policiais já não são de bolso. São romances enormes, trilogias, continuam maioritariamente trepidantes – ao contrário de Maigret, Poirot ou Miss Marple – e a espelhar o mal das nossas sociedades no tempo em que vivemos, apostando sempre na verosimilhança do narrado sem muitas concessões ao poético. Os autores masculinos, por norma, eram mais violentos, trepidantes e não dispensavam o humor. As autoras não, mais marotas, sempre escondiam a perversidade debaixo de rendas e serviço de chá. Deliciosas perversidades.

A verdade é que foi com os policiais que muita gente adquiriu o hábito de ler antes de dormir e depois não dormia para ler. E é por isso que estas edições de bolso fazem falta. Até porque os policiais obedecem – por norma – às regras todas da ficção (a gramática narrativa do cinema clássico também obedece a essas regras). São verdadeiros manuais práticos da arte de escrever ficção. Só Frank Gruber escreveu 300 histórias, 60 novelas e 200 scripts para televisão e cinema. Esmagador!

Agora, temos uma nova onda de policiais nórdicos. São bons. Agarramo-nos a eles e não os largamos, mas são enormes. Não dão jeito.

A Colecção Vampiro faz falta, mais a misoginia de Poirot, a serenidade de Maigret, as idiossincracias de Nero Wolfe, o humor cínico e a violência de Sam Spade e Philip Marlowe. E alguém consegue dissociar a figura de Humphrey Bogart destes dois últimos?

Há muito que não agarrava num livro da Colecção Vampiro. Quase se desfazia de tão velhinho, mas já tenho pena de ter feito negócios ruinosos com os alfarrabistas. Já deveria saber que não tenho jeito para o negócio.

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O Apocalipse segundo Cormac McCarthy

Há autores a que chegamos tarde na vida e outros a que chegamos demasiado cedo. Ler Camilo ou Alexandre Herculano com pouco mais de 14 anos – era o que estava à mão, ou me deixaram à mão, para ser mais explícito – é um caminho seguro para não os gramar. Mais tarde, corrigi a minha opinião sobre o primeiro, de tal maneira que agora sou fanático. Tentar ler James Joyce, Beckett ou Proust aos 19 ou 20 anos pode ter sido cedo demais para apreender todas as implicações daquela escrita. Nessa idade, estamos prontos para Dickens, Victor Hugo, algumas coisas de Jack London, Conrad e aparentados ou a literatura da geração Beat norte americana, ou ainda Sartre e seus muchachos. Lê-se muito e com pouco critério. Ainda bem. Na leitura, como nos amores, o critério é prejudicial. Ama-se, porque sim, sem critério, e gosta-se de um livro porque sim, estávamos nessa onda. Isso retira-nos presunção intelectual, o que é óptimo sobretudo porque nos poupa à humilhante situação de nos confrontarmos com os verdadeiros intelectuais.

Isto vem a propósito de só há 3 anos ter chegado à obra de Cormac McCarthy. Como é que este autor se me escapou durante tanto tempo? Como é que isso foi possível? Até certo ponto, ainda bem, porque aquilo é para gente crescida, que já viveu alguma coisa e sabe que o mundo não é a preto e branco, é negrume como a violência que guardamos cá no íntimo e que explodirá se lhe derem asas. Não há dicotomias entre o bem e o mal. Há o mal, ponto. E uma impotência para o travar que se traduz num cansaço que sono algum reparará. É coisa dura, para corações revestidos a desencanto sobre a natureza dos homens.

MacCarthy é um dos grandes escritores do séc.XX. E são muitos. Estará entre os melhores, seguramente. Com um problema: se não for bilingue escusa de tentar lê-lo no original. A escrita é de um rigor feroz nas descrições – ele sabe ou foi saber todos os nomes de cada uma das pecinhas que compõem um revólver, p.ex. – pelo que sem dicionário à mão não vai lá. Por outro lado, respeita as idiossincracias dos ambientes e espaços geográficos em que faz correr a acção. A prosa, rigorosa e certeira, de uma objectividade que não deixa espaço a fantasias dispersantes sobre o que ele pretende, é de uma riqueza deslumbrante. É indecoroso alguém escrever assim, porque nos proíbe de ter ambições. Ou seja, é de tal maneira bom que jamais nos atreveríamos a ambicionar escrever assim. E isso é mau. Faz-nos desistir porque nunca nos deslumbraremos tanto connosco como nos deslumbramos com ele. Detestamos o homem. Ele permite-nos isso, porque não se dá a conhecer, não facilita empatias. Até há pouco tempo era tido como eremita militante. Agora já não. Permite fotografias e, uma vez por outra, lá dá uma entrevista. Não nos adianta nada. A obra é de tal forma poderosa que as entrevistas desajudam.

“A Estrada”, soube-o depois, até é um caso relativamente singular na obra de McCarthy. Não pelos ambientes. O cenário é apocalíptico, o tom é de violência, quando não presente, pelo menos pressentida ou passada. A diferença está na semente de ternura que induz esperança. A história daquele pai e daquele filho, em deambulações pelo que resta de uma terra devastada por aquilo que adivinhamos ter sido um vendaval de destruição violenta com origem em mão humana, tem uma carga de ternura de causar inveja ao mais cor-de-rosa dos escritores nos seus melhores dias de bom senso. E mais: o final abre uma porta de esperança que não é habitual em McCarthy, ainda que a porta de continuidade dessa coisa a que chamamos humanidade não seja certa. Na obra de McCarthy, o que é negrume, permanece negrume. A redenção, não existe, e quando é procurada, é-o na mais desesperada solidão. “A Estrada” é uma obra prima absoluta e eu pensava que era o ponto alto da obra de McCarthy. Engano. Não era. Nem sequer o badalado “Este país não é para Velhos” o é. Ambos foram adaptados ao cinema com resultados diversos. e por isso são os títulos mais conhecidos.

John Hillcoat pegou no argumento de “A Estrada” e usou-o para reverenciar a obra de que parte. Mau sinal. O filme resulta frouxo, salvando-se os cenários naturais (desde o resultado das cheias em New Orleans até a um parque de diversões vítima de incêndio). Esta apreciação pode estar condicionada ao facto de ser feita após a leitura do livro. O ponto é: chegar ao apuro do romance, à natureza da relação pai/filho, ao facto de haver um revólver com duas balas que não é arma de ataque ou defesa mas de resolução em última instância de um estado insuportável de vida, é desafio demasiado gigantesco se não se estiver em estado de graça criativa. E não se estava.

Já “Este país não é para velhos” dos irmãos Coen é outra história. Não ficaram amarrados ao livro, nem tiveram uma atitude reverente face ao autor e, portanto, criaram algo que poderia ser novo, não fosse dar-se o caso de partir de algo pré-existente. O filme é bom e o melhor dele está na impotência do xerife perante o mal, apesar de estar sempre um passo adiante dele no resultado, mas dois passos atrás na possibilidade de o impedir. Daí o cansaço. o abandono, a quase desistência. A ambiguidade moral presente na obra de McCarthy desaparece no filme dos Coen, embora por portas travessas se mantenha a intensidade feita de uma implacável lentidão de processos em coisas que queremos rápidas.

A prosa de McCarthy parece simples porque a sua construção assenta na simplicidade exacta das descrições. É uma economia de palavras para uma precisão cinematográfica porque ele quer-nos mostrar o quão aterrador pode ser este mundo. E ficamos aterrados com a simplicidade como a violência explode em nós, por vezes em surdina como um gato a caminhar para a sua presa.

Isto tudo para dizer que a obra prima de Cormac McCarthy é “Meridiano de Sangue”. Obra inclemente, sem dó dos leitores, difícil, inclassificável. ” Meridiano de Sangue” não nos abandona após a leitura. Torna-se um pesadelo recorrente. Não julgamos possível tal amplitude de violência, tal ausência de valores… minto, há valores, mas esses são de tal maneira contra os nossos judaico-cristão princípios que nos custa aceitar que sejam valores. Ao contrário de “A Estrada” onde se admite que somos capazes do melhor e do pior num espaço temporal curto, neste “meridiano” tal não existe. É o pior que está em nós que comanda a acção. E o impensável é que há quem tenha a capacidade, de sangue manchado de cima abaixo, de racionalizar os actos cometidos. Assombrosa capacidade ficcional.

“Meridiano de Sangue” passa-se no tempo de criação de uma nação, os Estados Unidos da América, e o que McCarthy nos questiona é: como pode nascer uma coisa boa por cima do mal imenso e do sangue por ele derramado. Martin Scorsese em “Gangs of New York” responde a essa questão, lembrando-nos que a Big Apple nasceu de um talho gigantesco.

Em “Meridiano de Sangue” há personagens maiores que a vida e que nos ficam na pele como tatuagens. Há cenários tão aterradores que só uma prosa tão precisa como a de McCarthy os torna possíveis. Há um lirismo impossível em cenários de cadáveres a perder de vista. O tradutor Paulo Faria, que teve a hercúlea tarefa de traduzir diz que “assim como as montanhas são em McCarthy o dorso de criaturas devónicas que emergem à flor da terra a tomar fôlego, também cada expressão ou termo do autor é o ressumar à flor da página de uma imensidão de referências e ideias insondáveis”. Eis a complexidade de McCarthy.

Como ter prazer em leitura povoada de demónios em forma de gente, vivendo em cenários de apocalipse nuclear, onde a humanidade está rarefeita, em que o perdão não existe pela simples razão de as personagens não acharem que aos seus actos se aplique o conceito? Como ter prazer no pesadelo? E, no entanto, é na consagração de que isto é um pesadelo que se afirma a nossa humanidade e isso salva-nos e satisfaz-nos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A amizade é um lugar estranho

A amizade, como o amor, são lugares estranhos. Lá diz o filme. Teorizações há muitas. O meu filho de 6 anos, acabadinhos de fazer, inadvertidamente, fez luz sobre a questão. Quando questionado sobre que amigos ele queria convidar para a sua festa de aniversário, sabendo já que os colegas da escola anterior estavam todos convidados e os amigos de outras brincadeiras também, faltando apenas os da escola nova, onde estava apenas com duas semaninhas de aulas, ele nem hesitou: O Rogério e o André. Mais nenhum?, questionámos nós intrigados. Mais nenhum.

Veio a festa e conhecemos o Rogério e o André. E vimos como se relacionavam com o nosso filho. E reparámos como esse relacionamento era feito de uma natureza diferente da de outros da escola antiga. Tinham a mesma educação, estrutura cultural de base, classe social, interesses comuns? Não, nem por isso. Bastava olhar para os pais para se ver que não era assim. Porquê o Rogério e o André? Em que se baseava aquela amizade súbita?

Pois, eis o segredo: em nada de especial. Simplesmente aconteceu. Harmonia na relação, nenhuma tentativa de ser melhor que o amigo, brincar mesmo que a brincadeira até nem entre na lista das que gosta mais, mas é a que o amigo no momento quer, protecção recíproca em ambientes potencialmente adversos e por aí fora.

Não há como a genuinidade das crianças para se observar os mecanismos que geram afectos e os outros que não gerando afectos geram apenas prazer. Dito de outra forma. As crianças podem ter prazer em brincar com outra criança, mas isso não significa que o mecanismo dos afectos tenha sido desencadeado. Há apenas prazer naquela brincadeira que, aliás, pode ser imediatamente abandonada se surgir outra mais interessante. Com um amigo não é a brincadeira o mais importante, é o amigo e, aí, é a partilha da brincadeira, seja lá qual ela seja, que é o fulcro.

Para uma criança não deve haver muitas coisas piores que ser abandonado sozinho a meio de uma brincadeira. Mas, acontece com frequência. Em se tratando de amigos, não é assim. Há sempre uma tentativa de arrastar o amigo para a nova brincadeira. O abandono, se alguma vez acontece, não acontece com a frieza com que assistimos frequentemente.

Segredos para a amizade? Não consigo descortinar nenhum. Como é o meu filho que está em causa nesta apreciação, poderia dizer que são as qualidades fora do normal dos amigos escolhidos, mas a verdade é que me pareceram crianças com as qualidades e os defeitos normais de crianças daquela idade. Pareceram-me particularmente afectuosos e alegres, mas a verdade é que, com eles, até o meu filho estava nessa disposição.

Das dezenas de crianças com que o meu filho já lidou, apenas meia dúzia resistiram ao crivo de uma relação mais permanente, quase sempre desejada. Eu diria que ele é um exagerado. Antes assim. Mas, com ele aprendi a não tentar arranjar explicações para a amizade. Simplesmente não existem.

A amizade não é agradecida, não vive de favores, não se mede pelo número de actos que a comprovam. Quando ela entra neste registo já perdeu o viço e não tarda a perder o que inicialmente a fez nascer. O favor não é favor porque é natural. Não agradecemos, simplesmente porque não há nada para agradecer. Aos amigos dizemos obrigado apenas porque são nossos amigos. Nada mais. E é muito.

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Make my day, mr. Clint

Clint Eastwood vai ter uma série de filmes seus a preços simpáticos à venda com O Expresso e/ou Visão. É uma boa notícia. Ou melhor, uma excelente notícia. Eastwood é o último dos grandes clássicos do cinema americano, herdeiro de Ford, Hawks, Capra, Huston, etc., todos diferentes, todos iguais na excelência. À excepção de um, todos os filmes propostos são obras primas absolutas. A excepção é Invictus, obra encomendada, favor ao amigo Morgan Freeman, que Eastwood filma sem grande rasgo, mas com a competência acima da média para quem está a fazer um biopic de uma figura como Mandela. É apenas um filme bom, no meio da excelência. É claro que faltam, na lista proposta pelo Expresso/Visão, pelo menos, “Bird”, sobre o génio de Charlie Parker, “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, retrato curioso de uma pequena cidade do sul e o díptico “Bandeiras dos Nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jima”, este último a faltarem adjectivos para o classificar. E ainda “Um Mundo Perfeito”, drama sem mácula sobre um condenado que foge da cadeia e faz uma criança refém. Genial a forma como Eastwood filma a relação da criança com o fugitivo. Um filme onde baralhamos a identificação dos bons e dos maus e onde fica claro que toda a redenção é possível e alcançável através dos afectos.

De todos os filmes citados, apenas “Bird” é anterior a “Imperdoável”. Quase fica a ideia de que Eastwood esperou um tempo de maturidade para fazer as obras que o poriam no panteão da arte cinematográfica. Não é inteiramente verdade, mas é quase. “Caçador Branco, Coração Negro” é um grande filme e é anterior. O filme retrata de forma livre, sem complexos e sem pretensões de estar a seguir a verdade histórica, o realizador John Huston nas filmagens de A Rainha Africana. Huston era, como Eastwood, um duro, símbolo do homem macho aventureiro. Só que, simultaneamente, ambos deixavam à vista, nos filmes feitos, uma sensibilidade apurada e um jeito muito especial de gerir e gerar emoções.

O que torna Eastwood um caso particular é que, para além de realizador e produtor consagrado e com um número de obras primas incomum, é o facto de ser actor. Mas, não um actor ocasional, como é normal em alguns realizadores, mas um actor que, por diversas vezes, foi considerado como o mais popular da indústria.

Foi como actor que a sua figura se tornou icónica. Os três filmes de Sérgio Leone, que impuseram o Western Spagheti (Por um Punhado de dólares, Por mais alguns dólares e o Bom, o Mau, e o Vilão) como género maior, transformaram Eastwood numa estrela, mas mais do que isso impuseram um estilo de representação singular. Leone dizia que gostava do seu estilo de representação porque ele tinha duas expressões faciais, com chapéu e sem chapéu. “O homem sem nome” desses filmes ficar-lhe -ia marcado a ferro, se Eastwood não soubesse libertar-se dessa imagem de marca.

Passados alguns anos, outro personagem forte se lhe colaria ao corpo: o do detective com métodos pouco ortodoxos Harry Callahan. Violento e com mau feitio, a personagem levantou discussões sobre a sua natureza fascizante, uma vez que a lógica justiceira era olho por olho, dente por dente. Ficou famosa a tirada ” Make my day” dita por Harry a um criminoso, pronto a disparar, ignorando princípios como “todos têm direito a um julgamento justo”.

A imagem de duro colou-se-lhe à pele como um autocolante. Raramente se lhe divisava um sorriso. Foi preciso colocar-se atrás da câmara para que a sua figura à frente da objectiva se suavizasse. O Eastwood romântico do genial “As Pontes de Madison County” – rara e mais do que feliz incursão pelo género romântico – nada tem a ver com a do cowboy solitário, violento e justiceiro, que ele tinha encarnado antes. Do mesmo modo, o desencantado e envelhecido treinador de boxe que aceita treinar uma jovem para a levar ao estatuto de campeã em “Million Dollar Baby” – entrada no reino do melodrama, feito pela porta grande – nada tem a ver com o veterano de mau feitio de “Gran Torino”, retrato certeiro de uma América em perda acelerada de valores. Contudo, nunca ganhou prémio algum de interpretação, embora os actores que dirigiu tivessem recebido diversas estatuetas.

Precisamente, foi em Gran Torino que ele, simbolicamente, mata a imagem de marca mais forte que o cinema guarda de si. Quando anuncia o fim da sua carreira de actor neste filme e encena a sua morte da maneira como o faz, a cena não deixa de ser tocante. O duro e com mau feitio Kowalski oferece-se como mártir para a passagem para uma outra realidade americana onde já não existe o sonho americano, mas persiste o medo. E é a origem do medo que ele mata ao fazer-se matar e, com ele, todos os duros vingadores que encarnou no cinema. Estamos no terreno do simbólico, numa cena perfeita, daquelas em que o génio do realizador é tudo.

O mesmo génio que filma uma cena de antologia em “As Ponte de Madison County”. Quando revirem o filme observem com atenção toda a sequência, quase no fim, em que à chuva, perante um sinal vermelho e um pisca pisca ligado, Meryl Streep joga toda a sua vida amorosa e afectiva. Sem palavras.

Igualmente sem palavras, é o desamparo de Tim Robbins em “Mystic River”, filme quase a inscrever-se no género tragédia grega. Sem ironia. Eastwood filma uma tragédia. Sem rodriguinhos ou concessões. Grande filme onde, para além de Robbins, há Sean Penn a encarnar um pai enfurecido e uma Marcia Gay Harden atormentada pela dúvida e pelo medo. Aqui não há redenção possível. Há acontecimentos que carregamos pela vida fora como marcas de nascença. Imperdível.

Conhecido pelos westerns, foi com um crepuscular western que ele encerra esse capítulo da sua carreira. O imperdível “Imperdoável” foi o último filme de cowboys em que ele entra como actor e o último western que ele realiza. Obra seminal e única, de uma violência sem par, que deixa entrar uma réstea de luz e ternura nos seus interstícios. É um filme de personagens perdidos, de baixa condição moral, em busca da redenção possível no meio do inferno.

“Bird”, de que já aqui falámos, é a homenagem de Clint à música que ele ama: o jazz. Fá-lo de forma brilhante em jeito de biografia de um dos seus expoentes máximos: Charlie Parker, também conhecido como Bird. O amor pela música faz das suas bandas sonoras, verdadeiras antologias de boa música. O próprio, aliás, é compositor de muitas das músicas centrais da sua obra filmica. Esse é outro exercício proposto. Ouvir a música de Eastwood nos filmes de Eastwood. Algumas das melodias por ele compostas são pequenas pérolas, segredos que se veiculam pelas teclas de um piano. Exemplar é a música do genérico de “As Pontes de Madison County”.

Clint é tido como conservador, a exemplo de Ford e outros realizadores do tempo dos clássicos. Mas, como Ford, o seu conservadorismo é marcado por forte sentido ético e moral. Em reunião de profissionais de cinema com a Comissão McCarthy, para que colegas denunciassem outros colegas, John Ford levantou-se majestático, com a autoridade que lhe era reconhecida e disse a frase que ficou para a história: “Chamo-me John Ford e faço westerns”. A seguir insurgiu-se contra o conteúdo da reunião, recusando-se a colaborar. Eastwood, se estivesse nessa reunião, poderia ter dito a frase, sendo que neles ela não corresponde à verdade. O cinema de ambos nunca foi refém de géneros.

O cinema de Eastwood é fortemente marcado por dilemas morais. Mesmo o detective Harry Callahan, a personagem mais polémica, vive um dilema ético e moral na sua acção. Sabemos que ele está do lado dos bons contra os maus, mas não é simpático, nem se esforça por o ser. O filme “Mundo Perfeito” é todo ele construído sobre esse dilema. O seu final, com a morte do foragido, não deixa lugar a dúvidas. A morte não é solução, sobretudo quando o que parece nem sempre é.  Million Dollar Baby termina com a questão da eutanásia e o problema moral envolvido. Nas Cartas de Iwo Jima, o exercício é a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, no caso os japoneses vencidos na 2ª Guerra e por aí fora. Meryl Streep nas “Pontes de…” é colocada sob o dilema de viver o romance da sua vida ou o de ficar com a sua família – marido e filhos que a amam e contam consigo. Em “Imperdoável” é o símbolo da justiça, quando corrompida moralmente, que é posto em causa. Não há lugar a perdão, sobretudo quando é a própria justiça o motor da violência e opressão.

Olha-se para as personagens de Eastwood e sente-se que ele gosta das suas personagens, ou seja ele gosta das pessoas. Como gosta dos actores. Ao que dizem ele dá grande margem de liberdade interpretativa, mas a constância de boas interpretações e de papéis bem conseguidos garante que há ali, escondida, uma brilhante direcção de actores. Seria exaustivo contar as vezes em que os seus actores foram nomeados para prémios de interpretação.

Eastwood parece seguir, no seu cinema, a máxima de José Cardoso Pires que dizia ter a aspiração de escrever sem qualquer estilo (a citação é livre). Obviamente, tal aspiração é impossível. A questão é não deixar as costuras narrativas à vista, optar pela simplicidade das formas narrativas e economia de meios estilísticos. Clint não inventa fórmulas, não inova na estrutura de argumento, conta a história da forma que considera mais eficaz e é tudo. E é neste é tudo que está o génio. Porque a simplicidade narrativa, quando atinge os seus objectivos, é coisa difícil e complexa. Quando retrata ambientes, o cineasta fá-lo como se não estivesse a dar importância aos pormenores. Às vezes é uma questão de ritmo, de respiração, de contenção nos exageros.

“Make my day”, mr. Clint.

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A música de Lobo Antunes

Conheço poucos amigos que sejam apreciadores convictos da obra de António Lobo Antunes. Para dizer a verdade são mais os que positivamente detestam a sua escrita. As crónicas, dizem eles, ainda vá que não vá, agora os romances…

E, já agora, também não apreciam a personalidade do homem que, valha a verdade, não faz o mínimo esforço para ser simpático. Nem vejo porque o haveria de fazer. Mas, convenhamos, os seus maneirismos, por vezes, parecem forçados.

Houve um tempo em que pensei que talvez esse “não gostar de Lobo Antunes” tivesse a ver com a rivalidade existente entre Saramago e ele. Como é sabido, não morriam de amores um pelo outro. Ambos, contudo, eram mais conhecidos do que lidos e ambos não tinham escritas fáceis, embora o prémio Nobel tenha uns quantos romances em que cedeu à facilidade e, na minha opinião, foi mais desigual na qualidade do que produzia.

Mas não, a questão não está na rivalidade entre ambos, embora seja frequente ouvir “prefiro o Saramago”, assim que se falava em Lobo Antunes.

Isto só faz sentido porque se trata dos dois escritores maiores da nossa língua que entraram ainda por este século adentro, uma vez que o que os une literariamente, para além da partilha da língua em que se expressam originalmente, é quase nada. As originalidades narrativas de Saramago pareceram sempre maiores do que na realidade eram, por força da utilização original da pontuação que obriga a um determinado ritmo de leitura, porque no resto segue as linhas clássicas da narração, nos tempos, nos espaços e na própria construção da trama. Lobo Antunes estilhaça os modelos narrativos clássicos e o original uso da pontuação é apenas um pormenor importante nesse exercício. Aquilo que podemos entender como trama é, muitas vezes, inexistente. Lobo Antunes retrata situações, não só do ponto de vista material/físico, mas emocional. Há uma paragem na acção para nos focarmos num momento e, o que é extraordinário nele é a transformação desse momento em algo revelador de tudo o que se vai passar mas não precisa de ser dito. Nele, a descrição do cenário não é, nunca é, inocente.

Por outras palavras, Saramago é de mais fácil leitura. E mais: as suas alegorias são universais, enquanto os universos de Lobo Antunes só o são no impiedoso retrato que faz de nós.

Não sou crítico literário nem nada que se pareça, nem a erudição é uma das minhas qualidades. Fica já a ressalva.

Vem esta conversa a propósito dos espectáculos que o S. Luís vai levar a cabo tendo como ponto de partida e de chegada a obra de Lobo Antunes. Pode ser um momento de revisão das nossas opiniões.

Lobo Antunes é um escritor sobejamente reconhecido e admirado em todo o mundo – naquele em que os livros existem e são lidos, obviamente, porque há outros mundos em que as preocupações são outras. E é-o mantendo e insistindo num olhar sobre nós próprios, portugueses, de Lisboa, mas muito dos subúrbios das grandes urbes, de agora, mas muito dos tempos cinzentos e sombrios do fascismo, em que a guerra surge como pano de fundo, nunca dispicienda de significado. A obra do escritor funciona como um espelho deformado em que nos revemos como somos na realidade, porque é na deformação que nos damos conta que fomos formados e educados num ambiente estranho, de mesquinhez e coisas pequenas. Apesar desse retrato, detecta-se em Lobo Antunes uma surpreendente ternura pela saloio genuíno que não quer ser outra coisa e um desprezo enorme pelo cosmopolita que não passa de um saloio. A costureirinha do bairro merece-lhe um olhar de ternura. O mesmo já não acontece com o inspector de finanças com comportamento de ministro nos seus parcos poderes. Passámos directamente de guardadores de vacas na aldeia para vendedores em lojas de centro comercial. O retrato é impiedoso. E não é simpático, convenhamos.

É difícil ler Lobo Antunes. Não vale a pena disfarçar. Até eu que me esforço, às vezes desisto. Não é vergonha. É apenas porque não podemos lê-lo como se lê um policial. Aqui, o espírito é outro. Temos de entrar naquele universo, impregnarmo-nos dele, deixarmos que aquele ritmo de leitura implacável se apodere de nós e não teimarmos em sermos nós a marcar o ritmo, não estranhar uma mudança súbita de registo e cenário, porque num repente, depois de uma vírgula, tudo volta ao princípio. Há um tempo que a leitura exige e raramente esse é o tempo que nós temos para lhe dedicar. Essa é a dificuldade.

Entrados no universo de alguns romances de Lobo Antunes, ficamos com uma música própria, feita de palavras com ritmos e melodias próprias. É essa música que está nos romances de Lobo Antunes aquilo que mais me fascina.

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Milagres da vida

Amigo meu fez 25 anos de casado. É verdade tenho amigos que fazem 25 anos de casado. É obra. Eu pensava que só os nossos pais comemoravam coisas assim. Mas não. Já temos amigos que o fazem.

Nestas comemorações, como nos casamentos, há sempre uma coisa que me incomoda e constrange: é a manifestação pública do amor e ternura, com os circunstantes a bater palmas e a incentivar. Provavelmente, terá sido por isso que nunca me casei formalmente. O amor e ternura acontecem naturalmente, não se forçam, nem têm data marcada. São coisas íntimas, muito nossas, segredos que guardamos para partilhar na cama partilhada, no sofá relaxante, quando nos entregam a chávena de chá quente ou, em versão mais hard, a aguardente velha após o jantar. Não nos vangloriamos disso em público. É por isso que nestas ocasiões, a coisa parece sempre forçada e feita com sorriso amarelo. Não foi o caso aqui, apenas porque os presentes eram todos da família, não em termos de sangue mas de laços afectivos.

25 anos de casados só se comemoram de forma pública quando a ternura e o amor já se espalharam para fora do âmbito do casal. Ou seja, quando estes, pela sua atitude e forma de estar, são exemplo de nobres sentimentos a outros que sentem dever-lhes essa comemoração. No fundo, não é o casal que está a comemorar a data, são os outros que lhes estão a agradecer o exemplo e o amor. É uma homenagem ao bem que o casal lhes faz ao ser assim como é.

Por outras palavras, juntarmo-nos a comemorações destas não é fazer-lhes favor nenhum, é a nossa forma de agradecer-lhes.

Espíritos mais volúveis compreenderão mal tanto tempo passado com a mesma pessoa. Estão enganados. Não é tanto tempo assim. No amor, o tempo é veloz e é sempre curto aquele que estamos com o amado. Simplesmente, não damos pela sua passagem. Os amantes não passam o tempo. O tempo é que passa por eles e eles não dão por isso. Excepto na perda de cabelo, nas brancas que surgem, na barriga que aumenta e no número de análises clínicas que se fazem. Não, 25 anos é pouco tempo. Uma gota de água. Nem se devia comemorar.

Não tenho a certeza  se 25 anos passados com a mesma pessoa obrigam a projectos comuns. Provavelmente não. Mas obriga a cedências. Disto e daquilo. É inevitável. O milagre é que, às tantas, essas cedências já não parecem cedências, são apenas objectivos comuns que se partilham. E o que era cedência caiu no limbo do esquecimento. É o milagre do amor em curso.

O milagre da ternura é doutro género. É a espreguiçadeira da velhice colada a uma outra a que se dá a mão para ver o pôr do sol imaginário. Aqui já não é o amor a funcionar, é algo mais duradouro: é a ternura. É o que fica do amor quando ainda há amor e quando já não há amor. É o que resiste às intempéries todas da vida.

Um casal está bem quando ainda há uma piada nova a que o parceiro responde sorrindo. Um casal está bem quando um deles percebe, admite e sabe que está forçar o outro, sendo que não pode ser de outra maneira. Não estará bem se não admitir, não perceber e não saber. Um casal está bem, quando os outros, amigos e familiares, estão bem junto deles porque sentem a harmonia, sem necessidade das palavras para a demonstrar. Um casal está bem quando ainda é capaz de rir de si próprio. Eu diria que este casal está bem.

Já agora, eu comemoro as minhas bodas de prata da amizade. Espero festa surpresa, com retrospectiva dos momentos mais marcantes destes últimos 25 anos. Com ou sem canecas de cerveja à mistura.

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Não me falem em tomates

A crónica de Miguel Esteves Cardoso, hoje, obriga-me a falar de um assunto de que só queria falar mais tarde. Tem a ver com tomates. Miguel, os tomates que comeste estão ainda fora de época. Os verdadeiros tomates são os do César e só estão bons a partir de meados de Agosto.

Esses tomates são um segredo bem guardado, em cerca de 6 metros quadrados, escondidos e resguardados por cameleiras no quintal do César, na cidade da Horta, Faial, Açores. Vou aos Açores, uma vez por ano comer estes tomates. Mas estes tomates não são tomates são outra coisa parecida com tomates. São fruta e são polivalentes.

Ficam bem de qualquer maneira. Comidos à maneira de pêssegos, em saladas, em tomatadas, em arroz, seja lá como for. São únicos e uma bênção. Só se dão naqueles 6 metros quadrados e eu não percebo porquê. É de uma tremenda injustiça para a humanidade e uma prenda que não sei se mereço. Prová-los uma única vez na vida, prova como a vida vale a pena. Eles são doces, mas não deixam de ser tomates, não sei se me entendem. Feitos pela mulher do César ficam ainda melhores porque ela já lhes conhece as manhas, mas ficam bem até mesmo cozinhados pela minha mulher e isto é o maior elogio que posso fazer àqueles tomates.

Salivo só de pensar neles e levanta-se uma angústia que é a de saber se posso ir aos Açores este ano. Eles estão quase bons para se comerem e eu não sei se este ano vou ter o privilégio de os ver. Por isso, por favor, não me falem em tomates.

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Eu tenho um largo

Eu tenho um largo. Há aldeias que se parecem com o meu largo. Só que são piores. O meu largo tem à volta outras ruas, outras árvores, outras gentes, escolas e lojas, outras casas e prédios. À volta das aldeias, normalmente não há nada. E é mau. Porque não há escolas para as crianças e não se ouvem os seus gritos. E isso basta para ser pior. O largo não é só meu, mas também é meu. É da D. Ana da mercearia, do sr. Zé do talho, do Barata da drogaria, do sr. Rafael e Sobral da pastelaria, da florista, da sra. da padaria, do vidraceiro de que nunca soube o nome, das sras. da farmácia, de que todos se queixam do tempo imenso que levam a atender, do pessoal do banco, da mulher do Barata que tem um estabelecimento de limpeza a seco e engomadoria, do sportinguista ferrenho dos jornais, onde tenho conta aberta para os records e bolas desta vida, da oficina que parecia ser barata mas não é, do estabelecimento do euromilhões que tem a caneta da sorte com menos sorte que eu conheço, da sra. dos correios, vagamente extravagante nos seus gostos pela cor vermelha… e a crise já arrumou com outros que pareciam de pedra e cal. Uma boutique à antiga, em que a dona, uma vamp decadente, também vinha do tempo das boutiques, já encerrou há tempos. Uma delegação bancária e uma peixaria já abandonaram o barco nestes dois últimos meses. E não esqueço o desgosto dos funcionários bancários na hora da despedida. Não é fácil abandonar um largo assim.

O sr. dos jornais já avisou que aos primeiros sinais de crise fechava a loja. Os donos da pastelaria fartam-se de dizer que se eu quiser trocar com eles o fazem de bom grado, mas eu não acredito. Ah! E nem sequer falta o rapaz criança que faz tudo e vive de biscates a este e àquele e até já me salvou de comprar uma bicicleta nova só porque a minha furou. E não esqueço daquela vez em que tive de cortar uma palmeira e a fiscal da câmara me ia multar, mas ela conhecia a malta do largo e esta lá lhe foi garantindo”deixe lá, ele é bom rapaz…” e lá me safei.

É um largo com vida própria. Tem os residentes e tem os que de fora ali fazem visitas. Esses topamo-los logo. Andam depressa, vão à farmácia, à pastelaria, deixam o carro mal estacionado e correm, indiferentes aos outros, do talho para o totoloto. Ora, as gentes do largo não são indiferentes aos outros. Querem sempre saber quem está na rua e a fazer o quê. Só não vão à farmácia perguntar o que a D. Felizberta (nome inventado, claro) comprou por vergonha, mas espreitam para dentro do saco quando metem conversa com ela à saída.

É gente diligente, pergunta sempre pela saúde uns dos outros e queixam-se imenso da espondilose e outras doenças. Até há um médico. Chama-se Mário Rui e, parece-me, ainda é do tempo em que ia à casa dos doentes. Agora não. Pedem-me a mim que vá lá a casa confirmar que o ar condicionado do vizinho faz um barulho ensurdecedor e eu, coitado, só ouço silêncio. “Está desligado”, é a conclusão. Saio, recomendando calma, mesmo sabendo que um médico foi mais eficaz que eu nessa medida porque não se ficou pelas palavras, passou aos químicos.

E sempre que vêem o meu garoto, fazem um ar de espanto: “Ah! Está tão grande! Faz-nos velhos! É tal e qual o pai”. Eu sei que é mentira. O miúdo é muito mais giro que o pai, mas eu agradeço. É sinal de simpatia.

No largo posso ficar a dever dinheiro. “Paga depois, não tem mal.” Apesar de o Multibanco ser ali à mão de semear. Mesmo sabendo que não é verdade, aprecio a confiança. Não custa acreditar e faz bem ao ego. Também finjo acreditar que a melhor carne do sr. Zé é para mim, assim como a melhor fruta da D. Ana. Mas, sei que se eu precisar de alguma coisa e eles me puderem desenrascar, não tenho problemas. Sempre dá um outro sossego.

Nem sequer falta um condomínio carregado de problemas. Ou melhor, de problemas entre os condóminos. O do 3ª dto não se dá com todos os do 2º, seja dto seja esqº; o do 1 dtº não se dá com a do 2dtº e esta não se dá com a do 2 esqº (tem dias… ao que parece, mas já ouve estalos ou coisa parecida). Eu dou-me com todos, mas o do 2º dtº prometeu deixar de me cumprimentar porque houve um dia em que, absorvido com coisas do mundo exterior e real, passei por ele e não cumprimentei. Foi ofensa grave. Esta personagem é a mesma personagem principal de uma história que demorei meses a decifrar. Passei os dias no meu quintal a ouvir o que parecia um guincho, um pássaro, um animal qualquer, um gato, um cão a ganir, uma coisa qualquer indecifrável. Eu olhava para o chão, para o ar , para os lados e não conseguia saber que ruído era aquele. Passei dias inteiros naquilo. Até que um dia, meses depois de se ter iniciado o mistério dei com ele. Estava na varanda. No 2º andar. Era uma espécie de assobio, entredentes, lançado sem que o próprio tivesse consciência disso. Um tique sonoro. Eis o que me andara a intrigar durante meses. Agora o autor do assobio, não me fala. Paciência!

Sabe bem sair à rua no meu largo. Cumprimentamos toda a gente. Toda a gente parece saber exactamente o que vamos fazer. É uma família grande. Falamos uns dos outros com à vontade e a segurança de não estarmos a ofender ninguém.

O meu largo já esteve ameaçado. Quiseram pôr-lhe a cidade judiciária a menos de 1 km dali. O comércio já rejubilava e eu já via montes de caras novas, desconhecidas, um largo como os outros onde ninguém se conhece, só por acidente, com pequenas e grandes superfícies a chamar gente de fora. Já estava a fazer-lhe o funeral quando acabaram com o projecto. É que, próximo do meu largo, moram umas personalidades importantes que também dão importância ao seu sossego e que, lá de vez em quando, até vão lá, ao largo, conviver com o povo, julgo eu, embora o convívio não passe de uns sorrisos.

Eu sei que mal viro costas, o pessoal do largo se põe a falar da minha vida. Não sei o que dizem, mas fico-lhes agradecido. É o único sítio onde a minha vida tem tanta importância que vale a pena falar dela. Ora, como é que podíamos não gostar de um sítio assim?

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Uma kora, um violoncelo e a harmonia no mundo

Ouvi-os ontem, por acaso, no canal de música Mezzo e a impressão foi a mesma de sempre: Ballaké Sissoko e Vincent Segal fazem música de câmara, exigente na entrega exclusiva, no silêncio e na abertura de espírito a uma sonoridade que não nos é vulgar. A Kora de Sissoko, espécie de harpa do Mali, com uma extraordinária sonoridade e variedade cromática de sons em simultâneo, casa surpreendentemente bem com o violoncelo de Segal, seja este tocado com arco ou dedilhado. Aliás, se a Kora é mais uniforme nos acordes, embora complexos, o violoncelo arranca sonoridades surpreendentes, colorindo uma música onde os silêncios, as elevações e os abaixamentos de tom são segredos de grandes músicos que tocam por uma pauta apenas inscrita na espiritualidade com que encaram o que fazem.

Vi-os na Gulbenkian, aqui há uns meses. Voltei a vê-los/ouvi-los agora. Esta não é música para grandes arrebatamentos de paixão, de adesão fácil e imediata, mas tem o segredo de num acorde, numa variação, num dedilhar da kora, ali num instante, não mais do que num instante, entre um conjunto de sons e outro, de repente saltar uma centelha que nos coloca acima do chão. É o instante da beleza pura.

Ravi Shankar dizia que tocava para alcançar Deus. Se tomarmos esse momento mágico em que a música nos faz ficar a pairar acima do chão, isto é, o momento em que o belo toma conta do instante, então é verdade. Depois, é a serenidade. Até ao próximo momento, instante de puro êxtase. Quando tudo parece monocórdico, há uma variação que inflecte o movimento, que mexe connosco e volta o mistério da conjugação de sons.

Isto só se consegue se houver harmonia. Um maliano e um francês, quando tocam juntos estão em harmonia. Um argentino (Messi) e um espanhol (Xavi) quando jogam futebol juntos estão em harmonia. Prova provada da possibilidade de um mundo que poderia ser outra coisa. Muito melhor.

Se uma música nos consegue fazer pensar assim, então é grande música.

 

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Uma tragédia para rir até às lágrimas

Conta a lenda que o autor da novela “Bem-Vindo Mr. Chance” recebeu um dia um telegrama do Jardineiro Mr. Chance, protagonista principal da sua novela. A surpresa deu lugar à estupefacção quando ligou para o telefone que vinha na mensagem e percebeu estar a falar com Peter Sellers. Este leu a novela e desde logo assumiu para si a personagem Mr. Chance. O resultado foi um filme assombroso, onde o célebre actor britânico tem um dos papéis da sua vida. Foi nomeado para um Óscar e ganhou os prémios de Melhor Actor dos Golden Globes e National Board of Review. Coube a Hal Ashby realizar a obra.

A sinopse é simples. Um homem que sempre viveu confinado aos limites de uma mansão com jardim, sendo responsável por este, nunca saindo desse espaço para o exterior, tinha como únicas duas realidades a televisão, que via à noite, e o jardim que cuidava de dia. Com a morte do proprietário da mansão, o jardineiro vê-se obrigado a ser confrontado com o mundo exterior. É desse confronto que nos fala o filme. Uma tragédia. Mas, os génios transformam as tragédias. É um outro olhar que transforma tudo. Da lágrima ao riso e à gargalhada vai apenas um pormenorzinho, um nada que tudo transforma. Um homem só perante o desconhecido mundo inclemente é uma tragédia. Sellers não elide a tragédia, apenas lhe dá um contorno diferente.

Bem- Vindo Mr. Chance é uma obra prima, sob qualquer ponto de vista. Sellers é sublime. Sem ele não haveria filme. Mr. Chance é ele. Nenhum outro actor seria capaz da performance. Fazer de um homem que só conhece a realidade através da televisão e ver como o mundo visto pelos raios catódicos difere do mundo real e percebê-lo através do olhar do actor não está ao alcance de qualquer um, especialmente porque o olhar de Sellers é de uma franqueza e ingenuidade impossíveis. Perceber como o vazio do discurso político e de poder é tão vazio, ou cheio, como preferirem, daquilo que são as variantes do clima e os seus efeitos na natureza e ler sinceridade na forma como Sellers o diz é obra.  Perceber como o poder, ou antes a sua ilusão, é um poderoso afrodísiaco, é de ir às lágrimas. Televisão, poder e sexo. Foi este o mundo que o jardineiro Chance encontrou. É diferente do seu?

“Bem- vindo Mr. Chance” tem passado nos canais de cinema da Tv Cabo e tem DVD disponível nas lojas da especialidade. Não há cinéfilo que se preze que se possa dar ao luxo de não o ver.

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