Clint Eastwood vai ter uma série de filmes seus a preços simpáticos à venda com O Expresso e/ou Visão. É uma boa notícia. Ou melhor, uma excelente notícia. Eastwood é o último dos grandes clássicos do cinema americano, herdeiro de Ford, Hawks, Capra, Huston, etc., todos diferentes, todos iguais na excelência. À excepção de um, todos os filmes propostos são obras primas absolutas. A excepção é Invictus, obra encomendada, favor ao amigo Morgan Freeman, que Eastwood filma sem grande rasgo, mas com a competência acima da média para quem está a fazer um biopic de uma figura como Mandela. É apenas um filme bom, no meio da excelência. É claro que faltam, na lista proposta pelo Expresso/Visão, pelo menos, “Bird”, sobre o génio de Charlie Parker, “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, retrato curioso de uma pequena cidade do sul e o díptico “Bandeiras dos Nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jima”, este último a faltarem adjectivos para o classificar. E ainda “Um Mundo Perfeito”, drama sem mácula sobre um condenado que foge da cadeia e faz uma criança refém. Genial a forma como Eastwood filma a relação da criança com o fugitivo. Um filme onde baralhamos a identificação dos bons e dos maus e onde fica claro que toda a redenção é possível e alcançável através dos afectos.
De todos os filmes citados, apenas “Bird” é anterior a “Imperdoável”. Quase fica a ideia de que Eastwood esperou um tempo de maturidade para fazer as obras que o poriam no panteão da arte cinematográfica. Não é inteiramente verdade, mas é quase. “Caçador Branco, Coração Negro” é um grande filme e é anterior. O filme retrata de forma livre, sem complexos e sem pretensões de estar a seguir a verdade histórica, o realizador John Huston nas filmagens de A Rainha Africana. Huston era, como Eastwood, um duro, símbolo do homem macho aventureiro. Só que, simultaneamente, ambos deixavam à vista, nos filmes feitos, uma sensibilidade apurada e um jeito muito especial de gerir e gerar emoções.
O que torna Eastwood um caso particular é que, para além de realizador e produtor consagrado e com um número de obras primas incomum, é o facto de ser actor. Mas, não um actor ocasional, como é normal em alguns realizadores, mas um actor que, por diversas vezes, foi considerado como o mais popular da indústria.
Foi como actor que a sua figura se tornou icónica. Os três filmes de Sérgio Leone, que impuseram o Western Spagheti (Por um Punhado de dólares, Por mais alguns dólares e o Bom, o Mau, e o Vilão) como género maior, transformaram Eastwood numa estrela, mas mais do que isso impuseram um estilo de representação singular. Leone dizia que gostava do seu estilo de representação porque ele tinha duas expressões faciais, com chapéu e sem chapéu. “O homem sem nome” desses filmes ficar-lhe -ia marcado a ferro, se Eastwood não soubesse libertar-se dessa imagem de marca.
Passados alguns anos, outro personagem forte se lhe colaria ao corpo: o do detective com métodos pouco ortodoxos Harry Callahan. Violento e com mau feitio, a personagem levantou discussões sobre a sua natureza fascizante, uma vez que a lógica justiceira era olho por olho, dente por dente. Ficou famosa a tirada ” Make my day” dita por Harry a um criminoso, pronto a disparar, ignorando princípios como “todos têm direito a um julgamento justo”.
A imagem de duro colou-se-lhe à pele como um autocolante. Raramente se lhe divisava um sorriso. Foi preciso colocar-se atrás da câmara para que a sua figura à frente da objectiva se suavizasse. O Eastwood romântico do genial “As Pontes de Madison County” – rara e mais do que feliz incursão pelo género romântico – nada tem a ver com a do cowboy solitário, violento e justiceiro, que ele tinha encarnado antes. Do mesmo modo, o desencantado e envelhecido treinador de boxe que aceita treinar uma jovem para a levar ao estatuto de campeã em “Million Dollar Baby” – entrada no reino do melodrama, feito pela porta grande – nada tem a ver com o veterano de mau feitio de “Gran Torino”, retrato certeiro de uma América em perda acelerada de valores. Contudo, nunca ganhou prémio algum de interpretação, embora os actores que dirigiu tivessem recebido diversas estatuetas.
Precisamente, foi em Gran Torino que ele, simbolicamente, mata a imagem de marca mais forte que o cinema guarda de si. Quando anuncia o fim da sua carreira de actor neste filme e encena a sua morte da maneira como o faz, a cena não deixa de ser tocante. O duro e com mau feitio Kowalski oferece-se como mártir para a passagem para uma outra realidade americana onde já não existe o sonho americano, mas persiste o medo. E é a origem do medo que ele mata ao fazer-se matar e, com ele, todos os duros vingadores que encarnou no cinema. Estamos no terreno do simbólico, numa cena perfeita, daquelas em que o génio do realizador é tudo.
O mesmo génio que filma uma cena de antologia em “As Ponte de Madison County”. Quando revirem o filme observem com atenção toda a sequência, quase no fim, em que à chuva, perante um sinal vermelho e um pisca pisca ligado, Meryl Streep joga toda a sua vida amorosa e afectiva. Sem palavras.
Igualmente sem palavras, é o desamparo de Tim Robbins em “Mystic River”, filme quase a inscrever-se no género tragédia grega. Sem ironia. Eastwood filma uma tragédia. Sem rodriguinhos ou concessões. Grande filme onde, para além de Robbins, há Sean Penn a encarnar um pai enfurecido e uma Marcia Gay Harden atormentada pela dúvida e pelo medo. Aqui não há redenção possível. Há acontecimentos que carregamos pela vida fora como marcas de nascença. Imperdível.
Conhecido pelos westerns, foi com um crepuscular western que ele encerra esse capítulo da sua carreira. O imperdível “Imperdoável” foi o último filme de cowboys em que ele entra como actor e o último western que ele realiza. Obra seminal e única, de uma violência sem par, que deixa entrar uma réstea de luz e ternura nos seus interstícios. É um filme de personagens perdidos, de baixa condição moral, em busca da redenção possível no meio do inferno.
“Bird”, de que já aqui falámos, é a homenagem de Clint à música que ele ama: o jazz. Fá-lo de forma brilhante em jeito de biografia de um dos seus expoentes máximos: Charlie Parker, também conhecido como Bird. O amor pela música faz das suas bandas sonoras, verdadeiras antologias de boa música. O próprio, aliás, é compositor de muitas das músicas centrais da sua obra filmica. Esse é outro exercício proposto. Ouvir a música de Eastwood nos filmes de Eastwood. Algumas das melodias por ele compostas são pequenas pérolas, segredos que se veiculam pelas teclas de um piano. Exemplar é a música do genérico de “As Pontes de Madison County”.
Clint é tido como conservador, a exemplo de Ford e outros realizadores do tempo dos clássicos. Mas, como Ford, o seu conservadorismo é marcado por forte sentido ético e moral. Em reunião de profissionais de cinema com a Comissão McCarthy, para que colegas denunciassem outros colegas, John Ford levantou-se majestático, com a autoridade que lhe era reconhecida e disse a frase que ficou para a história: “Chamo-me John Ford e faço westerns”. A seguir insurgiu-se contra o conteúdo da reunião, recusando-se a colaborar. Eastwood, se estivesse nessa reunião, poderia ter dito a frase, sendo que neles ela não corresponde à verdade. O cinema de ambos nunca foi refém de géneros.
O cinema de Eastwood é fortemente marcado por dilemas morais. Mesmo o detective Harry Callahan, a personagem mais polémica, vive um dilema ético e moral na sua acção. Sabemos que ele está do lado dos bons contra os maus, mas não é simpático, nem se esforça por o ser. O filme “Mundo Perfeito” é todo ele construído sobre esse dilema. O seu final, com a morte do foragido, não deixa lugar a dúvidas. A morte não é solução, sobretudo quando o que parece nem sempre é. Million Dollar Baby termina com a questão da eutanásia e o problema moral envolvido. Nas Cartas de Iwo Jima, o exercício é a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, no caso os japoneses vencidos na 2ª Guerra e por aí fora. Meryl Streep nas “Pontes de…” é colocada sob o dilema de viver o romance da sua vida ou o de ficar com a sua família – marido e filhos que a amam e contam consigo. Em “Imperdoável” é o símbolo da justiça, quando corrompida moralmente, que é posto em causa. Não há lugar a perdão, sobretudo quando é a própria justiça o motor da violência e opressão.
Olha-se para as personagens de Eastwood e sente-se que ele gosta das suas personagens, ou seja ele gosta das pessoas. Como gosta dos actores. Ao que dizem ele dá grande margem de liberdade interpretativa, mas a constância de boas interpretações e de papéis bem conseguidos garante que há ali, escondida, uma brilhante direcção de actores. Seria exaustivo contar as vezes em que os seus actores foram nomeados para prémios de interpretação.
Eastwood parece seguir, no seu cinema, a máxima de José Cardoso Pires que dizia ter a aspiração de escrever sem qualquer estilo (a citação é livre). Obviamente, tal aspiração é impossível. A questão é não deixar as costuras narrativas à vista, optar pela simplicidade das formas narrativas e economia de meios estilísticos. Clint não inventa fórmulas, não inova na estrutura de argumento, conta a história da forma que considera mais eficaz e é tudo. E é neste é tudo que está o génio. Porque a simplicidade narrativa, quando atinge os seus objectivos, é coisa difícil e complexa. Quando retrata ambientes, o cineasta fá-lo como se não estivesse a dar importância aos pormenores. Às vezes é uma questão de ritmo, de respiração, de contenção nos exageros.
“Make my day”, mr. Clint.